Depois de tanto tempo sem escrever eu estou voltando de uma maneira bem diferente. Dessa vez não são as impressões da vida diária, do meu lugar de conforto onde eu posso refletir sobre a vida no meu ritmo! Mas também não quero fazer um diário de viagem do tipo: “As aventuras de Iana no Canadá!”. Muito menos um guia de Vancouver para brasileiros. Eu quero sim falar das minhas impressões, mas de uma rotina bem diferente. Depois dos últimos dias de aula do ensino médio, de um período de férias mais longo que o normal eu volto às aulas de uma maneira bem peculiar. Não em uma universidade, de volta à minha cidade, mas em outro país, aprendendo inglês, bem longe de casa, da família e dos amigos. Por aqui só a Craveiro pra me aturar e vice-versa!
A verdade é que em se tratando de Canadá a primeira coisa que eu sinto é falta do calor. Eu já desconfiava, mas agora tenho certeza: DEFINITIVAMENTE nasci no lugar certo! Eu amo o calor do Brasil! Por aqui encontrei muito brasileiro com vontade de ficar cada vez mais, quanto a mim: eu quero voltar! Não do tipo se eu pudesse pegava um avião hoje mesmo para casa, não, isso não. Eu quero é no dia que está marcado na minha passagem de volta pegar meu voo e chegar no Recife! A experiência é válida e só de estar sozinha em um país diferente por 4 semanas já me considero uma pessoa diferente. A mudança interna é notável ao ponto de em tão pouco tempo eu mesma já me sentir diferente. O problema é que não parece natural, são pressões externas que forçam uma mudança de atitude imediata sem um raciocínio prévio. É como se eu tivesse meio perdida de mim. Não consigo nem dizer se gosto ou não.
Tudo funciona mais ou menos assim: 1. Observar; 2. Registrar; 3. Repetir. O automático está funcionando como nunca. É como se eu estivesse meio burra, sem senso crítico, cabeça aberta demais. Claro que o papo de abrir a cabeça para novas culturas, se permitir conhecer outros lugares é verdadeiro e importante. O problema talvez seja que, conhecendo o que conheço de mim mesma, uma viagem pra Índia ou algo do tipo me encantaria mais. A grande verdade é que não me deslumbrei com o lugar. A cidade é bonita, agradável, mas só isso não é suficiente. Talvez um lugar com menos McDonalds, menos pizza por 1 dólar, menos apelo ao consumo me deixaria mais feliz. Nas idas e vindas da escola, quase nada me faz sorrir! Só quando algum músico de rua está em alguma esquina ou na frente de uma estação tocando boa música, aí sim um sorriso escapa com naturalidade.
Sei que aqui, como em quase todos os lugares, deve ter aquele lugar onde só se toca boa música, gente com um senso crítico afiado esperando por debates calorosos. Muito provavelmente eu estou numa cidade onde a falta de preconceito e multiplicidade de culturas aflora em algum lugar, mas ainda não fui apresentada a isso. Diferente do que eu esperava: estou cercada por mais do mesmo! A mesma sensação de que por aí tem gente que pensa feito eu, mas estou frequentando os lugares errados. Pra quem esperava uma mudança tá tudo igual demais. As primeiras impressões do tipo: motoristas educados, respeito aos idosos, pessoas que seguram a porta aberta quando veem alguém vindo... Nada disso me impressionou, eu já me sentia na obrigação de ser assim. Aqui eu só tenho o empurrão que me faltava para agir.
Acho que a coisa tá soando como se eu fosse cool demais para isso tudo. Mas não é por aí. No fim das contas acho que a banda toca mais ou menos por onde dois primos meus dizem: um diz que eu sou velha, outro que eu sou chata. Bom, fazer o que se eu sinto falta da minha casa e a maioria das coisas não me empolga com tanta facilidade? O que eu sei é que Vancouver ainda tem mais dois meses para me conquistar. Ela que não espere muito porque a cidade do meu coração é Recife e esse posto nenhuma outra tasca. Pelo menos ultimamente o sol tem aparecido com mais frequência e até calor às vezes faz dentro do meu quarto. Se no fim eu vou ser conquistada não sei, mas que Vancouver (em parceria com o sol) tá começando a trilhar o caminho certo, tá!
Um Fio Solto
domingo, 8 de abril de 2012
terça-feira, 29 de novembro de 2011
CONSIDERAÇÕES SOBRE A RETROSPECTIVA 2011
Quando eu parei na frente do computador para escrever a retrospectiva 2011, com todo o cuidado para não deixar margens que fizessem dela um “documento que usa a imagem do colégio”, eu não sabia por onde começar. Bem, na verdade eu sabia muito bem por onde começar! Começaria com o artigo da constituição que fala sobre a liberdade de expressão, seguido de uma pequena nota: “Logo, eu posso falar.” ou escrever, tanto faz! Mas o que deveria vir depois? Fiz uma relação dos acontecimentos marcantes desse ano e acrescentei um de 2007, outro de 2008, outro de 2009 e um de 2010 (os anos em que fui da turma D). A relação não foi suficiente para me fazer escrever. Pelo menos não agora.
Eu já estava convencida de que o texto seria bem mais pessoal esse ano. Não tem como não ser, o fim do ensino médio é pessoal para todo mundo, cada um tem sua maneira de reagir diante do fechamento de mais um dos muitos ciclos da vida que ainda teremos de fechar. Foi no meio de toda essa ‘pessoalidade’ que decidi separar as coisas. Decidi fazer esse texto para colocar no blog e dizer que vocês não devem desanimar, eu vou fazer a retrospectiva sim, ou ao menos pretendo. O fato é que as coisas ficaram bem sentimentais e a culpa é mais minha do que da turma. Muita coisa aconteceu comigo esse ano, alguns devem saber muito bem do que estou falando, outros desconfiam e alguns outros não têm a mínima idéia. Em resumo, esse foi um ano de muitas despedidas, e a retrospectiva é mais uma. Acho que não estou emocionalmente pronta para essa, mas como um dia ela terá de ser feita, um dia vocês a terão.
Voltar para Recife é um sonho, mas não é nenhum sonho bom. É claro que eu amo a minha cidade e a minha família inteira que mora aqui (eu estou em Recife, vim fazer vestibular), mas aí em Teresina está uma vida que eu relutei no início e depois lutei pra conseguir. Eu odiava Teresina e não me sinto mal em dizer isso porque é verdade. Mas as coisas não são mais assim. Penso sempre que seria perfeito trazer o meu condomínio, a escola e a falta de engarrafamento daí para cá. Ah, e a segurança também! Acontece que a gente não tem tudo o que quer e muitas vezes nem metade disso. O que eu tenho agora é medo, eu diria pesar. Recife hoje não é mais a mesma que eu deixei ou a das férias, que sempre se parece com um retorno à infância, e nem todas as pessoas continuam aqui. Eu não sei o que me aguarda próximo ano e já me convenci que decepções e surpresas inimagináveis virão. Mas o que me assusta mesmo é o que eu vou deixar em Teresina, quanto disso poderei dizer que vou levar para o resto da vida. Isso só o velho tempo poderá responder. Tempo esse que me intimida bastante, principalmente depois que ‘um certo professor de física’ me mostrou que ele é relativo.
O mesmo tempo me deu a resposta quando eu perguntei “O que é que eu tô fazendo aqui?”. Desde julho de 2003 essa pergunta soou tantas vezes na minha cabeça e eu continuava sem resposta. Foi quando entrei na nossa turma que as coisas começaram a mudar. Percebi que eu devia viver em Teresina e não encarar esses anos todos como uma sala de espera pra vida que eu teria quando voltasse para Recife. Deixei o desespero de lado quando contava os dias para vir para cá. Comecei a querer passar alguns dias das férias em Teresina e não só ouvir os relatos do que havia acontecido. Foi quando eu quis juntar as minhas duas pontas e a todo custo levar meus primos pra aí nas férias ou trazer meus amigos pra cá. Tive sucesso só no sentido família Teresina, mas a esperança é a última que morre e as portas na minha casa aqui estarão abertas para os verdadeiros amigos.
Foi no meio da agitação e da bagunça da sala em 2007 que consegui vislumbrar algo que eu poderia chamar de escola. Até o primeiro semestre de 2003, meu sinônimo de escola era liberdade. Ir para uma cidade onde crianças na terceira série já tinham um horário e ninguém podia chama a professora de “tia” era o mesmo que me pôr algemas. Eu estava acostuma com um modelo construtivista, onde não existia horário, os livros ficavam na escola (a gente só levava pra casa o que precisava pra fazer a tarefa do dia), as paredes dos corredores eram cobertas de azulejo onde os alunos pintavam, o lanche era coletivo e de dois em dois meses a gente fazia um passeio pra uma fábrica de reciclagem ou coisa do tipo. Isso sem contar com a feira de ciências! Cada turma recebia um subtópico do tema da feira e ao longo do ano íamos trabalhando aquilo até setembro quando montávamos nossos stands. O resultado dessa mudança brusca foi que eu sempre esquecia material, fazia notas mentais pra lembrar de não chamar a professora de “tia” e estar na escola às sete da manhã quando antes essa era minha hora de acordar era uma verdadeira tortura. O tempo foi passando e quando cheguei aí no colégio isso tudo já era quase normal, não que não seja, mas na minha cabeça isso era o tipo de coisa que só os alunos ‘grandes’ do Fundamental II precisavam se preocupar. Foi nesse período que comecei a estudar na minha quarta e última escola, por isso essas coisas já cabiam na minha cabeça.
É claro que nem tudo foram flores, quem era da minha turma ano passado conhece muito bem um exemplo dos espinhos, talvez o maior deles. Mas eu termino minha vida escolar em paz com o colégio, muito mais pelos alunos e professores do que por qualquer outra coisa. São essas as pessoas que conviviam, convivem e ainda vão conviver por mais um mês comigo, todo santo dia. São vocês que chegam a me ver com mais freqüência do que minha mãe, que ajudaram a construir quem eu sou agora e quem eu vou ser. Então só me resta agradecer por tudo e fazer a melhor retrospectiva de todas porque vocês merecem. Eu devo isso a vocês! Só vou pedir mais um pouquinho de paciência, não é fácil colocar no papel tudo o que é importante.
quinta-feira, 31 de março de 2011
A PALAVRA EM 3X4
Fala-se muito no poder das palavras, de que devemos pesar o que iremos dize, pois nossas palavras podem magoar, ou que às vezes o silêncio é a melhor resposta... Coisas desse tipo. Também existem os eufemismos para que palavras rudes não sejam ditas, mas em algumas situações eles beiram a ironia. Outras podem ser pejorativas em algumas situações, outras em qualquer situação. Ou seja, cada palavra tem seu lugar e momento.
Cada um às olha de uma maneira diferente, dependendo da sua especialização. Até mesmo dentro de cada especialização existem diferenças. Por exemplo, os lingüistas e os gramáticos avaliam cada uma delas de uma maneira diferente. Mas e nós, na verdade e a maioria de nós, que as usamos como uma simples forma de expressão? Nós simplesmente aprendemos o significado delas através de associações, isso desde muito novos, agora elas estão até em nossos pensamentos. Quando lemos um livro, por exemplo, são as palavras que comandam nossa criatividade, nos indicam a direção e então, só então, imaginamos.
Mas a verdade é que as palavras tornam as coisas concretas. O que está em nossa mente só ganha corpo quando falamos. Só com palavras, sejam elas escritas ou faladas, as coisas se tornam verdade. Quantos de nós só passamos a acreditar em determinadas ideias depois de verbalizá-las? Tudo é exatamente como diz a letra de uma música “Isso começou como um sentimento / Que desejava crescer e se tornar uma esperança / Que desejava se tornar um pensamento quieto / Que desejava se transformar em uma palavra quieta / E a palavra cresceu mais alta e alta / Até que era um grito de batalha.” Depois que as coisas se transformam em palavra elas ganham vida própria. Uma palavra depois que é dita não precisa mais do seu locutor. A prova mais banal disso é a fofoca.
As palavras têm som, têm tom, significado, sentimento, momento, vida. Afinal, elas são a expressão da vida, a estampa dos pensamentos. Até a ausência delas é cheia de significados. Elas estão na música, na pichação do muro, no conhecimento, na transmissão do conhecimento, nos livros, nos erros, nos acertos, no bem, no mal, dizem tudo, seja em um bilhete ou em um artigo de opinião. Não importa a língua, palavra é palavra em qualquer lugar, só muda a grafia.
É por essas e outras que devemos sim pensar antes de falar coisas importantes. Mas devemos também nos deixar levar pelos encantos de uma palavra desconhecida. Devemos guiá-las e nos deixar ser guiados. É até saudável e justo que deixemos escapar as palavras puras que vêem sem filtro, elas também são a expressão de sensações. Quando nos abstemos do uso de determinadas palavras por mera formalidade, pode ser ruim, devemos construir o momento e lugar de cada uma delas. Devemos organizar as palavras de modo que elas possam transmitir exatamente aquilo que queremos, mas às vezes pode ser doce o sabor de nos confundir e gaguejar sem achar a palavra certa.
Por fim, as palavras não são plenas, mas são enormes. São as coisas mais certas e ambíguas do mundo, pois a língua é uma criação nossa, dos seres humanos, e assim como nós não é perfeita, mas fundamental. Elas podem descrever, encantar, entristecer, confundir, alegrar e calar, mas... Como já dizia Rodrigo Amarante “Não te dizer o que eu penso / Já é pensar em dizer”.
Cada um às olha de uma maneira diferente, dependendo da sua especialização. Até mesmo dentro de cada especialização existem diferenças. Por exemplo, os lingüistas e os gramáticos avaliam cada uma delas de uma maneira diferente. Mas e nós, na verdade e a maioria de nós, que as usamos como uma simples forma de expressão? Nós simplesmente aprendemos o significado delas através de associações, isso desde muito novos, agora elas estão até em nossos pensamentos. Quando lemos um livro, por exemplo, são as palavras que comandam nossa criatividade, nos indicam a direção e então, só então, imaginamos.
Mas a verdade é que as palavras tornam as coisas concretas. O que está em nossa mente só ganha corpo quando falamos. Só com palavras, sejam elas escritas ou faladas, as coisas se tornam verdade. Quantos de nós só passamos a acreditar em determinadas ideias depois de verbalizá-las? Tudo é exatamente como diz a letra de uma música “Isso começou como um sentimento / Que desejava crescer e se tornar uma esperança / Que desejava se tornar um pensamento quieto / Que desejava se transformar em uma palavra quieta / E a palavra cresceu mais alta e alta / Até que era um grito de batalha.” Depois que as coisas se transformam em palavra elas ganham vida própria. Uma palavra depois que é dita não precisa mais do seu locutor. A prova mais banal disso é a fofoca.
As palavras têm som, têm tom, significado, sentimento, momento, vida. Afinal, elas são a expressão da vida, a estampa dos pensamentos. Até a ausência delas é cheia de significados. Elas estão na música, na pichação do muro, no conhecimento, na transmissão do conhecimento, nos livros, nos erros, nos acertos, no bem, no mal, dizem tudo, seja em um bilhete ou em um artigo de opinião. Não importa a língua, palavra é palavra em qualquer lugar, só muda a grafia.
É por essas e outras que devemos sim pensar antes de falar coisas importantes. Mas devemos também nos deixar levar pelos encantos de uma palavra desconhecida. Devemos guiá-las e nos deixar ser guiados. É até saudável e justo que deixemos escapar as palavras puras que vêem sem filtro, elas também são a expressão de sensações. Quando nos abstemos do uso de determinadas palavras por mera formalidade, pode ser ruim, devemos construir o momento e lugar de cada uma delas. Devemos organizar as palavras de modo que elas possam transmitir exatamente aquilo que queremos, mas às vezes pode ser doce o sabor de nos confundir e gaguejar sem achar a palavra certa.
Por fim, as palavras não são plenas, mas são enormes. São as coisas mais certas e ambíguas do mundo, pois a língua é uma criação nossa, dos seres humanos, e assim como nós não é perfeita, mas fundamental. Elas podem descrever, encantar, entristecer, confundir, alegrar e calar, mas... Como já dizia Rodrigo Amarante “Não te dizer o que eu penso / Já é pensar em dizer”.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
RESPOSTA
Nas duas últimas semanas a frase que eu mais ouvi foi “Como é que tu tá?”. Ouvi tanto que cansei, mas o pronome variava de vez em quando “Como você tá?”. A minha resposta era sempre a mesma: o silêncio. As pessoas insistiam e eu também, no entanto, elas não se cansavam de perguntar como eu me cansava de ouvir. Voltavam a perguntar ou completavam com um “O que você tá sentindo?” (mas não é a mesma coisa?!). Tentando por um ponto final no assunto que nem começava eu respondia com um silencioso e veemente dar de ombros. Para a minha mãe eu falava:
– Sei lá! – E ela me abraçava preocupada. Deve ser realmente difícil não saber o que se passa na cabeça de uma filha quando ela perde um pai. Mas quer saber? Nada passava pela minha cabeça. Nem um mísero pensamento, tudo que eu sentia era uma atração fatal pela cama e pela TV. O pior momento do dia era acordar, ou melhor, levantar da cama e pensar que mais uma enxurrada de “Como você tá?” vinha pela frente. Eu não tinha vontade de ver gente, principalmente, quando a primeira coisa que eu ouvia ao acordar era meu primo de oito anos falar, com a minha mãe, como um adulto:
– Coitada da minha prima! É muito difícil perder o pai tão nova – eles agora irão descobrir que eu estava acordada.
No dia que meu pai foi cremado eu já havia reforçado meu estômago com aço durante a noite. Fui para o cemitério pensando em todas as pessoas que eu nunca havia visto e que me cumprimentariam entristecidas e nas tantas outras que nem sabiam quem eu era. Eu não me importei, não me importo nem vou me importar com isso, minha família e meus amigos sabem quem eu sou, isso já basta. Mas, como em vários momentos da minha vida, naquela hora eu queria ser invisível. Geralmente quando me acometo desse desejo é por curiosidade, curiosidade de saber como as pessoas que eu conheço são quando a sós e sem muralhas. Daquela vez eu só queria me livrar da fadada pergunta! Para meu espanto, em determinado momento um dos meus irmãos pergunta:
– E tu, como é que tu tá? – Minha resposta é a de sempre. Reprimo um sorriso irônico, eu não queria ser mal interpretada, só estava cansada de ouvir sempre a mesma coisa. Até que ele pergunta:
– Não tem resposta? – FINALMENTE!! Grito por dentro.
– Não, não tem – seria tão difícil para ao outros entenderem isso? Eu não tinha resposta. Havia só pensamentos, sensações e um monólogo para meu pai todas as noites. Eu não sabia onde ele estava, eu só sabia que eu falava, isso eu ainda podia fazer, apesar de optar pelo silêncio no restante do dia. Eu queria muito que as pessoas parassem de me perguntar aquilo, eu queria voltar para casa, eu queria compartilhar o silêncio com alguém que não saberia o que dizer pra me confortar.
Aos poucos as sensações foram virando sentimento: eu não sentia que painho havia ido embora, eu não sentia que devia tê-lo abraçado mais, ter dito que o amava. Todos os dias eu esperava que isso viesse, mas não veio. O que veio foi o primeiro pensamento “meu pai morreu no hospital que eu nasci.” Uma grande ironia da vida, talvez? Só se for dessas que não fazem o menor sentido, nem nos ensinam nada. Deixei isso pra lá e de repente eu queria falar, falar montes de pensamentos que brotavam do nada, mas um dos pares de ouvidos que eu queria não estava por perto e o outro sempre desviava do assunto. Desisti. A tempestade foi passando. Já consigo escrever, apesar de mareada, nesse momento um abraço cairia bem do par de ouvidos que desvia do assunto.
O que fez a tempestade passar? Meu pai. Meus monólogos noturnos, longos, repetitivos e fatigantes tiveram uma resposta curta. Na madrugada do sábado ele foi respondido com uma invasão a um sonho tranqüilo e insignificante. Com grande susto me deparo com um pai sentado na minha cama. Ganhei um abraço e muitas, muitas perguntas.
Uma certeza meu pai me deu, ele pode me ouvir. O par de ouvidos que estava longe havia me avisado que alguém queria conversar comigo, mas não foi preciso intermediação. O que eu tinha pra ouvir, pude ouvir do meu próprio pai. O par de ouvidos de longe me tirou a preocupação que o ar confuso de painho me causou, já tem gente com ele.
Nunca senti vontade de chorar pelo meu pai, pois sempre soube que ele iria para um lugar bom. Estive preocupada com seus sentimentos e pensamentos, mas me assegurei de dizer tudo o que devia. Não quero mais nem menos do que isso, meu pai está comigo como sempre esteve. Não quero emitir um grito de dor para o mundo todo ouvir se não tenho essa dor. Não quero ser maior do que eu já sou, sendo do meu tamanho já posso ser vista pelas pessoas que importam, inclusive meu pai. E eu não quero falar como eu estou por que isso pode ser visto no meu rosto todos os dias. As pessoas só tiveram de se calar para que eu pudesse me ouvir e assim responder a todos com o silêncio das palavras escritas.
– Sei lá! – E ela me abraçava preocupada. Deve ser realmente difícil não saber o que se passa na cabeça de uma filha quando ela perde um pai. Mas quer saber? Nada passava pela minha cabeça. Nem um mísero pensamento, tudo que eu sentia era uma atração fatal pela cama e pela TV. O pior momento do dia era acordar, ou melhor, levantar da cama e pensar que mais uma enxurrada de “Como você tá?” vinha pela frente. Eu não tinha vontade de ver gente, principalmente, quando a primeira coisa que eu ouvia ao acordar era meu primo de oito anos falar, com a minha mãe, como um adulto:
– Coitada da minha prima! É muito difícil perder o pai tão nova – eles agora irão descobrir que eu estava acordada.
No dia que meu pai foi cremado eu já havia reforçado meu estômago com aço durante a noite. Fui para o cemitério pensando em todas as pessoas que eu nunca havia visto e que me cumprimentariam entristecidas e nas tantas outras que nem sabiam quem eu era. Eu não me importei, não me importo nem vou me importar com isso, minha família e meus amigos sabem quem eu sou, isso já basta. Mas, como em vários momentos da minha vida, naquela hora eu queria ser invisível. Geralmente quando me acometo desse desejo é por curiosidade, curiosidade de saber como as pessoas que eu conheço são quando a sós e sem muralhas. Daquela vez eu só queria me livrar da fadada pergunta! Para meu espanto, em determinado momento um dos meus irmãos pergunta:
– E tu, como é que tu tá? – Minha resposta é a de sempre. Reprimo um sorriso irônico, eu não queria ser mal interpretada, só estava cansada de ouvir sempre a mesma coisa. Até que ele pergunta:
– Não tem resposta? – FINALMENTE!! Grito por dentro.
– Não, não tem – seria tão difícil para ao outros entenderem isso? Eu não tinha resposta. Havia só pensamentos, sensações e um monólogo para meu pai todas as noites. Eu não sabia onde ele estava, eu só sabia que eu falava, isso eu ainda podia fazer, apesar de optar pelo silêncio no restante do dia. Eu queria muito que as pessoas parassem de me perguntar aquilo, eu queria voltar para casa, eu queria compartilhar o silêncio com alguém que não saberia o que dizer pra me confortar.
Aos poucos as sensações foram virando sentimento: eu não sentia que painho havia ido embora, eu não sentia que devia tê-lo abraçado mais, ter dito que o amava. Todos os dias eu esperava que isso viesse, mas não veio. O que veio foi o primeiro pensamento “meu pai morreu no hospital que eu nasci.” Uma grande ironia da vida, talvez? Só se for dessas que não fazem o menor sentido, nem nos ensinam nada. Deixei isso pra lá e de repente eu queria falar, falar montes de pensamentos que brotavam do nada, mas um dos pares de ouvidos que eu queria não estava por perto e o outro sempre desviava do assunto. Desisti. A tempestade foi passando. Já consigo escrever, apesar de mareada, nesse momento um abraço cairia bem do par de ouvidos que desvia do assunto.
O que fez a tempestade passar? Meu pai. Meus monólogos noturnos, longos, repetitivos e fatigantes tiveram uma resposta curta. Na madrugada do sábado ele foi respondido com uma invasão a um sonho tranqüilo e insignificante. Com grande susto me deparo com um pai sentado na minha cama. Ganhei um abraço e muitas, muitas perguntas.
Uma certeza meu pai me deu, ele pode me ouvir. O par de ouvidos que estava longe havia me avisado que alguém queria conversar comigo, mas não foi preciso intermediação. O que eu tinha pra ouvir, pude ouvir do meu próprio pai. O par de ouvidos de longe me tirou a preocupação que o ar confuso de painho me causou, já tem gente com ele.
Nunca senti vontade de chorar pelo meu pai, pois sempre soube que ele iria para um lugar bom. Estive preocupada com seus sentimentos e pensamentos, mas me assegurei de dizer tudo o que devia. Não quero mais nem menos do que isso, meu pai está comigo como sempre esteve. Não quero emitir um grito de dor para o mundo todo ouvir se não tenho essa dor. Não quero ser maior do que eu já sou, sendo do meu tamanho já posso ser vista pelas pessoas que importam, inclusive meu pai. E eu não quero falar como eu estou por que isso pode ser visto no meu rosto todos os dias. As pessoas só tiveram de se calar para que eu pudesse me ouvir e assim responder a todos com o silêncio das palavras escritas.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
NEM IRMÃOS, NEM AMIGOS
Primos. Eles são de todo tipo. Eles são os mais velhos, os da sua idade e os mais novos. Cada um à sua maneira e proprietários de algum momento de nossas vidas. Existem os próximos, os que não são, os que já foram e os que não eram próximos.
A vida em família são só mimos quando somos o caçula e todo mundo quer brincar com “o bebê fofinho”. É claro, não lembramos esses momentos, mas o caçula da vez está lá pra nos encantar com seus gracejos e sorrisos sapecas. Depois a gente cresce e outros, aos poucos, vão chegando. Basta esperar e um dos pestinhas vai nos escolher como tênis e ele vai ser o chiclete. Esse chiclete, em particular, exige atenção nos momentos mais improváveis. Constantemente perdemos a paciência, mas além dessa névoa existe um amor totalmente incondicional.
Nossas primeiras confidentes são as primas. Elas têm quase a mesma idade que nós e acabam se tornando nossas primeiras amigas. Quando levamos pela vida as amizades com todos os altos e baixos naturais, olhamos para a infância e reconhecemos nossas melhores amigas não nas coleguinhas do colégio. Também andando pela vida, reconhecemos nos nossos gostos musicais as influências (gigantescas) daquele primo que nos fazia escutar umas músicas estranhas. Não tínhamos a menor noção do que ouvíamos, mas era tudo tão legal.
Diferente dos nossos irmãos, os primos nos trazem outras noções, experiências, de lar, assim como nossos amigos. Mas quando acontecem as brigas, os desentendimentos, surge a beleza de sermos primos. Amigos podem simplesmente virar as costas e saírem, leva um bom tempo até acharmos aquele que fica. Já os primos podem se distanciar, mas nas reuniões de família lá estarão eles e com um pouquinho de insistência o amor dormente de quase irmãos fala mais alto. Com os primos a gente erra, pisa na bola sem medo de cair e nunca mais levantar. Consumimos a paciência deles tentando ser legal e vamos juntos ao cinema, na mala do carro para assistir Harry Potter.
Isso não dura para sempre, por maior que seja nossa vontade. Mas aí chega o de longe querendo juntar todo mundo. Às vezes nós somos os de longe, andamos meio perdidos em uma terra estranha, quando tudo o que queremos é estar em casa. As férias chegam e fazemos o caminho inverso da maioria, não viajamos de férias, voltamos para casa.
O que a gente quer quando chega? Dá um beijo nos avós, um abraço nos tios e se divertir como nos velhos tempos, com os primos. O primeiro deles que procuramos é o comunicativo e articulado, um verdadeiro colete salva-vidas num mar de ex-conhecidos. Juntos, pensamos em alguma coisa, um programa legal que raramente dá certo e nunca está todo mundo. Mas tudo bem, o natal e o ano novo estão aí para salvar os de longe.
E, viva, os momentos ímpares do passado. Uma música antiga, as broncas de nossas avós quando destruíamos o jardim dela, lembranças deles que só o nosso Eu tem. E pelas brigas ou picolés cheios de areia na praia, sorrimos. Sorrimos sozinhos no meio da noite quando sonhamos com eles ou quando nos lambuzamos comendo alguma coisa.
A vida em família são só mimos quando somos o caçula e todo mundo quer brincar com “o bebê fofinho”. É claro, não lembramos esses momentos, mas o caçula da vez está lá pra nos encantar com seus gracejos e sorrisos sapecas. Depois a gente cresce e outros, aos poucos, vão chegando. Basta esperar e um dos pestinhas vai nos escolher como tênis e ele vai ser o chiclete. Esse chiclete, em particular, exige atenção nos momentos mais improváveis. Constantemente perdemos a paciência, mas além dessa névoa existe um amor totalmente incondicional.
Nossas primeiras confidentes são as primas. Elas têm quase a mesma idade que nós e acabam se tornando nossas primeiras amigas. Quando levamos pela vida as amizades com todos os altos e baixos naturais, olhamos para a infância e reconhecemos nossas melhores amigas não nas coleguinhas do colégio. Também andando pela vida, reconhecemos nos nossos gostos musicais as influências (gigantescas) daquele primo que nos fazia escutar umas músicas estranhas. Não tínhamos a menor noção do que ouvíamos, mas era tudo tão legal.
Diferente dos nossos irmãos, os primos nos trazem outras noções, experiências, de lar, assim como nossos amigos. Mas quando acontecem as brigas, os desentendimentos, surge a beleza de sermos primos. Amigos podem simplesmente virar as costas e saírem, leva um bom tempo até acharmos aquele que fica. Já os primos podem se distanciar, mas nas reuniões de família lá estarão eles e com um pouquinho de insistência o amor dormente de quase irmãos fala mais alto. Com os primos a gente erra, pisa na bola sem medo de cair e nunca mais levantar. Consumimos a paciência deles tentando ser legal e vamos juntos ao cinema, na mala do carro para assistir Harry Potter.
Isso não dura para sempre, por maior que seja nossa vontade. Mas aí chega o de longe querendo juntar todo mundo. Às vezes nós somos os de longe, andamos meio perdidos em uma terra estranha, quando tudo o que queremos é estar em casa. As férias chegam e fazemos o caminho inverso da maioria, não viajamos de férias, voltamos para casa.
O que a gente quer quando chega? Dá um beijo nos avós, um abraço nos tios e se divertir como nos velhos tempos, com os primos. O primeiro deles que procuramos é o comunicativo e articulado, um verdadeiro colete salva-vidas num mar de ex-conhecidos. Juntos, pensamos em alguma coisa, um programa legal que raramente dá certo e nunca está todo mundo. Mas tudo bem, o natal e o ano novo estão aí para salvar os de longe.
E, viva, os momentos ímpares do passado. Uma música antiga, as broncas de nossas avós quando destruíamos o jardim dela, lembranças deles que só o nosso Eu tem. E pelas brigas ou picolés cheios de areia na praia, sorrimos. Sorrimos sozinhos no meio da noite quando sonhamos com eles ou quando nos lambuzamos comendo alguma coisa.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
LEALDADE(...)(!)(?)(.)
Às vezes a vida nos coloca diante de uma moeda, de um jogo de cara ou coroa. Não que a vida seja um jogo, mas há quem a veja assim. Nossa passagem em cada lugar é uma construção de relações e isso é muito mais complexo do que um simples jogo. Mas quando isolamos alguns momentos podemos ver um “quê” de jogo. Jogo de palavras, de sentimentos, de pensamentos, de emoções que envolvem seres humanos. E alguns desses momentos são jogos de cara ou coroa.
Diante de uma moeda é preciso escolher um lado e, como tudo na vida nós não podemos jogar só. É preciso competidores e alguém para lançar a moeda para cima. Em algumas situações nós somos uma das faces da moeda e o destino (para os que acreditam), ou o acaso (para os que não acreditam), ou os fatos é que lançam a moeda. Então podemos ser o lado sorteado ou não e nesses casos o lançador é o mais justo de todos, não há roubo.
Já em outras situações nós mesmos somos quem lançamos a moeda. Nesse caso o lançador não é justo, já que estamos lançando à sorte as escolhas de alguém e não pensando e decidindo os nossos atos diante dos atos dos outros.
Em outro caso nós apenas decidimos nos aliar a um dos lados da moeda, apenas decidimos com quem iremos ficar e, então, o destino (ou o acaso, ou os fatos) volta a decidi. Cabe apenas a nós escolhermos o lado e nesse caso não é uma escolha aleatória. Se pensarmos em cada face da moeda como alguém que conhecemos não escolheremos uma das faces à toa. Estará presente na nossa escolha o lado emocional, a razão, as convicções e a pressão de saber que o jogo só irá começar quando nós decidirmos o nosso lado.
Como pessoas precisamos reconhecer que não podemos agradar a todos, somos apenas humanos imperfeitos, talvez um mais do que os outros. Mas não há uma pessoa sequer sem um único defeito ou qualidade e todos nós estamos no mesmo barco, o que navega em busca da felicidade. Escolher um lado da moeda deve caber dentro disso. Tomar partido significa desagradar os que ficaram do outro lado, mas é preciso fazer o que é certo sem temer aos outros.
É aí que às vezes entra uma palavrinha com um significado curioso: lealdade. O que é isso? Algo que caminha, ou pelo menos deve caminhar, de mãos dadas com a amizade. Também deve estar presente quando escolhemos um dos lados da moeda, e não devemos ser condenados por escolher o amigo e não o colega. Podemos encontrar a resposta para o nosso lado no coração, na mente, na ética, na lealdade.
É importante pensar, sentir e decidir com calma o nosso lado, pois o tempo jamais volta e não nos cabe nessa vida o arrependimento, nem mesmo do que deixamos de fazer. Nossas escolhas podem trazer tempestades e não teremos como fugir das conseqüências, pois para toda ação existe uma reação, seja ela interna ou externa. No jogo a moeda é lançada e ganha quem tiver a sua face escolhida sorteada. Na vida não existem perdedores ou vencedores, somos apenas jogadores que mesmo desconhecendo as regras não queremos sair da mesa.
Diante de uma moeda é preciso escolher um lado e, como tudo na vida nós não podemos jogar só. É preciso competidores e alguém para lançar a moeda para cima. Em algumas situações nós somos uma das faces da moeda e o destino (para os que acreditam), ou o acaso (para os que não acreditam), ou os fatos é que lançam a moeda. Então podemos ser o lado sorteado ou não e nesses casos o lançador é o mais justo de todos, não há roubo.
Já em outras situações nós mesmos somos quem lançamos a moeda. Nesse caso o lançador não é justo, já que estamos lançando à sorte as escolhas de alguém e não pensando e decidindo os nossos atos diante dos atos dos outros.
Em outro caso nós apenas decidimos nos aliar a um dos lados da moeda, apenas decidimos com quem iremos ficar e, então, o destino (ou o acaso, ou os fatos) volta a decidi. Cabe apenas a nós escolhermos o lado e nesse caso não é uma escolha aleatória. Se pensarmos em cada face da moeda como alguém que conhecemos não escolheremos uma das faces à toa. Estará presente na nossa escolha o lado emocional, a razão, as convicções e a pressão de saber que o jogo só irá começar quando nós decidirmos o nosso lado.
Como pessoas precisamos reconhecer que não podemos agradar a todos, somos apenas humanos imperfeitos, talvez um mais do que os outros. Mas não há uma pessoa sequer sem um único defeito ou qualidade e todos nós estamos no mesmo barco, o que navega em busca da felicidade. Escolher um lado da moeda deve caber dentro disso. Tomar partido significa desagradar os que ficaram do outro lado, mas é preciso fazer o que é certo sem temer aos outros.
É aí que às vezes entra uma palavrinha com um significado curioso: lealdade. O que é isso? Algo que caminha, ou pelo menos deve caminhar, de mãos dadas com a amizade. Também deve estar presente quando escolhemos um dos lados da moeda, e não devemos ser condenados por escolher o amigo e não o colega. Podemos encontrar a resposta para o nosso lado no coração, na mente, na ética, na lealdade.
É importante pensar, sentir e decidir com calma o nosso lado, pois o tempo jamais volta e não nos cabe nessa vida o arrependimento, nem mesmo do que deixamos de fazer. Nossas escolhas podem trazer tempestades e não teremos como fugir das conseqüências, pois para toda ação existe uma reação, seja ela interna ou externa. No jogo a moeda é lançada e ganha quem tiver a sua face escolhida sorteada. Na vida não existem perdedores ou vencedores, somos apenas jogadores que mesmo desconhecendo as regras não queremos sair da mesa.
domingo, 5 de setembro de 2010
UMA QUESTÃO DE SILÊNCIO
Nota: eu não tenho mania de limpeza ou sou impressionada com sabonetes, eles apenas me fizeram refletir em alguns momentos.
São dois sabonetes: o Vermelho, para o corpo e “a Branca”, para o rosto. Ambos vivendo no mesmo banheiro, mas não nos mesmos lugares. Eles dividem uma saboneteira, “a Branca” fica, na base da saboneteira, na pia, já o Vermelho fica na tampa, no boxe. Quase todas as vezes que eu ia tomar banho eles se viam, pois levava “a Branca” para o boxe. Havia períodos em que se encontravam quase todos os dias. Isso acontecia quando eu estava habituada a lavar o rosto durante o banho, no entanto houve épocas em que lavava meu rosto na pia, assim que saia do banho. De uma forma geral, os sabonetes, mesmo morando no mesmo banheiro e dividindo a mesma saboneteira, dependiam das ações do cotidiano para se verem com freqüência ou não.
Nunca foram grades amigos, acredito que não chegaram nem a ser amigos. Mas se cumprimentavam e quando havia algum assunto comum aos dois conversavam e trocavam idéias, eram momentos raros esses. Acontece que em uma dessas idas e vindas (especificando: na última vinda) o sabonete Vermelho mostrou uma sutil diferença no seu comportamento em relação “a Branca”. Isso não passou despercebido por ela e desde então eles estiveram mais próximos do que nunca. Até eu cheguei a perceber algo entre eles que durou algum tempo em um puxa-encolhe que parecia não ter fim.
Certo dia, fui passar um final de semana na casa de umas amigas e, por não encontrar outra, tive que levar os dois sabonetes juntos na mesma saboneteira. Duas horas talvez, se mais, não muito, eles ficaram. Ali, no escuro da mochila, trancados dentro da saboneteira e próximos um do outro. Assim como nos outros momentos em que se viam, esse também foi um momento leve e engraçado, onde nenhum dos dois falou no que estava acontecendo. Aquela foi a concretização de uma história onde, desde o começo, nem uma palavra foi pronunciada, nem uma conversa direta, tudo ficava apenas subentendido nos gestos e em frases que tinham sua verdadeira finalidade disfarçada.
Depois de passado aquele momento em que estiveram juntos nada mais se podia esperar dos dois. Havia sido algo feito para durar pouco, apesar de um período de preparação meio longo, e morar numa gaveta velha da memória. Como a água de uma lagoa que evapora para se perder no céu. São necessárias horas e mais horas para que a água se aqueça ao sol, às vezes um dia todo não é suficiente e é preciso esperar por um dia mais quente. Até quando finalmente a água vira vapor, sobe e então se perde no céu. Assim deveria ser com os sabonetes: dois meses de preparação para duas horas e depois fim!
Mas antes que esse vapor pudesse chegar ao céu para poder se perder, como uma lembrança que se perde na memória, o sabonete Vermelho fez com que se sublimasse e como um enorme bloco de gelo, caiu sobre a cabeça “da Branca”. Então, uma coisa que deveria permanecer como uma lembrança boa por um ou dois meses, se transformou em um pesadelo doloroso e duradouro. A mesma água que leve começou a subir, despencou pesando toneladas e deixando feridas. No caso, “na Branca” ele deixou uma grande mancha vermelha que apesar do tempo e mesmo com o uso do sabonete ainda não saiu. Todos os dias quando vou lavar meu rosto, olho para “a Branca” e vejo uma mancha bem menor do que no começo, mas ainda persistente.
No entanto, quando vou tomar banho, olho para o vermelho e nada, nem uma única lembrança e esse foi o seu crime: esquecer, ou dizer que não lembra. Nem mesmo uma gota de culpa, ou até mesmo um incomodo nos momentos, agora muito mais raros, em que encontra “a Branca”. A postura do Vermelho, ao negar seus atos mostra como hoje tudo é descartável. De forma egoísta, ele buscou o seu lugar de conforto, onde nem se quer fala sobre o que aconteceu e mantém em si tudo o que esse fato poderia ter mudado em sua essência ou aparência.
As razões pelas quais o sabonete Vermelho fez isso são um grande mistério, no entanto pode não haver uma razão, talvez ele simplesmente seja assim: incapaz de pensar nos outros e nas conseqüências na hora de fazer o que lhe dá na telha. Ou seja, apenas um canalha por natureza. Já “a Branca” não vê isso com felicidade, mas se pudesse voltar atrás faria tudo de novo para aprender tudo o que pode e amadurecer em alguns meses o que levaria três anos em outras circunstâncias. E caso tivesse que se arrepender de alguma coisa teria sido falar pensamentos que ela silenciou em algumas vezes.
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