terça-feira, 24 de agosto de 2010

PETER PAN & ALICE

Infância, doce infância! Ah, quando foi mesmo que ela ficou pra trás? Ainda consigo vê-la alguns passos atrás de mim. Nos fins de tarde, quando caminho com o sol às minhas costas, posso ver sua sombra saltitante a me acompanhar e me roubar um sorriso solitário quando traz um cheiro de roupa lavada e brigadeiro.

São nesses momentos que me lembro do menino que não queria crescer. Meus pés se agitam querendo correr. Meus dedos se põem inquietos querendo mexer em alguma coisa. Meu cabelo parece pesar uma tonelada, querendo voltar a ter não mais do que vinte e cinco centímetros. Minha boca saliva querendo uma bacia de pipoca. Em seguida a nostalgia toma conta de mim e me lembro das palavras do Sr. Barrie “[...] Nessas praias mágicas, as crianças quando brincam estão para sempre banhando suas conchas de coral e madrepérola. Nós também estivemos lá um dia. Ainda conseguimos ouvir o barulho das ondas. Porém nunca mais desembarcaremos em suas areias.”

Peter Pan vem carregado com a magia de realizar o grande desejo de não crescer, mostrando-se muito mais adulto do que qualquer outra criança. Talvez o pequeno garoto Peter seja dono de uma consciência madura. Pois enquanto ainda somos pequenos seres recém-chegados nesse mundo, nosso maior desejo é crescer e nos ver livres das regras dos pais. Já quando começam a chegar os primeiros sinais da adolescência as dúvidas começam e queremos de volta a simplicidade da infância.

Com a idade vem a necessidade de que tudo faça sentido. Cada tarefa que somos encarregados, cada passo que damos, cada descoberta que fazemos tudo passa pela obrigatoriedade do fazer sentido. Não conseguimos mais ter nosso espírito livre para ouvir uma história sem começo, meio ou fim e nos encantar como a estica-encolhe: Alice. “O que não tenha pé nem cabeça!” com as palavras da própria garota que se tornou grande sem crescer.

Na infância não nos cabe o verbo “crescer” nós apenas queremos ser grandes, mas só quando crescemos é que a seriedade dessa palavra se revela e talvez fosse melhor que nunca descobríssemos o seu significado. Seria melhor que, assim como Alice, ficássemos grandes sem crescer e por que não encontrar um chapeleiro maluco ou um gato misterioso que deixa um único rastro por onde passa: o seu sorriso!

Peter e Alice são frutos de duas mentes fantásticas. Livres o suficiente para conseguir voltar à infância ou cansadas demais com as obrigações do mundo adulto e apenas acharam um brilhante cano de escape. Não sei ao certo, não tenho o direito de querer saber, apenas me conforto sabendo que as loucuras da infância não são tão loucas assim, pois todos gostam delas e felizmente podem ser registradas para que não se percam com o tempo.

Assim como se perdeu em algum lugar do passado o dia em que minha mãe chegou em casa com o VHS de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Todas as crianças que enchiam a casa da minha avó se sentaram no sofá e assistiram, com toda a atenção que se permitiam ao filme.

Fadas, coelho falante, Capitão Gancho, baralho vivo, meninos perdidos, chapeleiro maluco... Tudo ajuda a manter o doce sabor da infância...