domingo, 5 de setembro de 2010
UMA QUESTÃO DE SILÊNCIO
Nota: eu não tenho mania de limpeza ou sou impressionada com sabonetes, eles apenas me fizeram refletir em alguns momentos.
São dois sabonetes: o Vermelho, para o corpo e “a Branca”, para o rosto. Ambos vivendo no mesmo banheiro, mas não nos mesmos lugares. Eles dividem uma saboneteira, “a Branca” fica, na base da saboneteira, na pia, já o Vermelho fica na tampa, no boxe. Quase todas as vezes que eu ia tomar banho eles se viam, pois levava “a Branca” para o boxe. Havia períodos em que se encontravam quase todos os dias. Isso acontecia quando eu estava habituada a lavar o rosto durante o banho, no entanto houve épocas em que lavava meu rosto na pia, assim que saia do banho. De uma forma geral, os sabonetes, mesmo morando no mesmo banheiro e dividindo a mesma saboneteira, dependiam das ações do cotidiano para se verem com freqüência ou não.
Nunca foram grades amigos, acredito que não chegaram nem a ser amigos. Mas se cumprimentavam e quando havia algum assunto comum aos dois conversavam e trocavam idéias, eram momentos raros esses. Acontece que em uma dessas idas e vindas (especificando: na última vinda) o sabonete Vermelho mostrou uma sutil diferença no seu comportamento em relação “a Branca”. Isso não passou despercebido por ela e desde então eles estiveram mais próximos do que nunca. Até eu cheguei a perceber algo entre eles que durou algum tempo em um puxa-encolhe que parecia não ter fim.
Certo dia, fui passar um final de semana na casa de umas amigas e, por não encontrar outra, tive que levar os dois sabonetes juntos na mesma saboneteira. Duas horas talvez, se mais, não muito, eles ficaram. Ali, no escuro da mochila, trancados dentro da saboneteira e próximos um do outro. Assim como nos outros momentos em que se viam, esse também foi um momento leve e engraçado, onde nenhum dos dois falou no que estava acontecendo. Aquela foi a concretização de uma história onde, desde o começo, nem uma palavra foi pronunciada, nem uma conversa direta, tudo ficava apenas subentendido nos gestos e em frases que tinham sua verdadeira finalidade disfarçada.
Depois de passado aquele momento em que estiveram juntos nada mais se podia esperar dos dois. Havia sido algo feito para durar pouco, apesar de um período de preparação meio longo, e morar numa gaveta velha da memória. Como a água de uma lagoa que evapora para se perder no céu. São necessárias horas e mais horas para que a água se aqueça ao sol, às vezes um dia todo não é suficiente e é preciso esperar por um dia mais quente. Até quando finalmente a água vira vapor, sobe e então se perde no céu. Assim deveria ser com os sabonetes: dois meses de preparação para duas horas e depois fim!
Mas antes que esse vapor pudesse chegar ao céu para poder se perder, como uma lembrança que se perde na memória, o sabonete Vermelho fez com que se sublimasse e como um enorme bloco de gelo, caiu sobre a cabeça “da Branca”. Então, uma coisa que deveria permanecer como uma lembrança boa por um ou dois meses, se transformou em um pesadelo doloroso e duradouro. A mesma água que leve começou a subir, despencou pesando toneladas e deixando feridas. No caso, “na Branca” ele deixou uma grande mancha vermelha que apesar do tempo e mesmo com o uso do sabonete ainda não saiu. Todos os dias quando vou lavar meu rosto, olho para “a Branca” e vejo uma mancha bem menor do que no começo, mas ainda persistente.
No entanto, quando vou tomar banho, olho para o vermelho e nada, nem uma única lembrança e esse foi o seu crime: esquecer, ou dizer que não lembra. Nem mesmo uma gota de culpa, ou até mesmo um incomodo nos momentos, agora muito mais raros, em que encontra “a Branca”. A postura do Vermelho, ao negar seus atos mostra como hoje tudo é descartável. De forma egoísta, ele buscou o seu lugar de conforto, onde nem se quer fala sobre o que aconteceu e mantém em si tudo o que esse fato poderia ter mudado em sua essência ou aparência.
As razões pelas quais o sabonete Vermelho fez isso são um grande mistério, no entanto pode não haver uma razão, talvez ele simplesmente seja assim: incapaz de pensar nos outros e nas conseqüências na hora de fazer o que lhe dá na telha. Ou seja, apenas um canalha por natureza. Já “a Branca” não vê isso com felicidade, mas se pudesse voltar atrás faria tudo de novo para aprender tudo o que pode e amadurecer em alguns meses o que levaria três anos em outras circunstâncias. E caso tivesse que se arrepender de alguma coisa teria sido falar pensamentos que ela silenciou em algumas vezes.
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