Nas duas últimas semanas a frase que eu mais ouvi foi “Como é que tu tá?”. Ouvi tanto que cansei, mas o pronome variava de vez em quando “Como você tá?”. A minha resposta era sempre a mesma: o silêncio. As pessoas insistiam e eu também, no entanto, elas não se cansavam de perguntar como eu me cansava de ouvir. Voltavam a perguntar ou completavam com um “O que você tá sentindo?” (mas não é a mesma coisa?!). Tentando por um ponto final no assunto que nem começava eu respondia com um silencioso e veemente dar de ombros. Para a minha mãe eu falava:
– Sei lá! – E ela me abraçava preocupada. Deve ser realmente difícil não saber o que se passa na cabeça de uma filha quando ela perde um pai. Mas quer saber? Nada passava pela minha cabeça. Nem um mísero pensamento, tudo que eu sentia era uma atração fatal pela cama e pela TV. O pior momento do dia era acordar, ou melhor, levantar da cama e pensar que mais uma enxurrada de “Como você tá?” vinha pela frente. Eu não tinha vontade de ver gente, principalmente, quando a primeira coisa que eu ouvia ao acordar era meu primo de oito anos falar, com a minha mãe, como um adulto:
– Coitada da minha prima! É muito difícil perder o pai tão nova – eles agora irão descobrir que eu estava acordada.
No dia que meu pai foi cremado eu já havia reforçado meu estômago com aço durante a noite. Fui para o cemitério pensando em todas as pessoas que eu nunca havia visto e que me cumprimentariam entristecidas e nas tantas outras que nem sabiam quem eu era. Eu não me importei, não me importo nem vou me importar com isso, minha família e meus amigos sabem quem eu sou, isso já basta. Mas, como em vários momentos da minha vida, naquela hora eu queria ser invisível. Geralmente quando me acometo desse desejo é por curiosidade, curiosidade de saber como as pessoas que eu conheço são quando a sós e sem muralhas. Daquela vez eu só queria me livrar da fadada pergunta! Para meu espanto, em determinado momento um dos meus irmãos pergunta:
– E tu, como é que tu tá? – Minha resposta é a de sempre. Reprimo um sorriso irônico, eu não queria ser mal interpretada, só estava cansada de ouvir sempre a mesma coisa. Até que ele pergunta:
– Não tem resposta? – FINALMENTE!! Grito por dentro.
– Não, não tem – seria tão difícil para ao outros entenderem isso? Eu não tinha resposta. Havia só pensamentos, sensações e um monólogo para meu pai todas as noites. Eu não sabia onde ele estava, eu só sabia que eu falava, isso eu ainda podia fazer, apesar de optar pelo silêncio no restante do dia. Eu queria muito que as pessoas parassem de me perguntar aquilo, eu queria voltar para casa, eu queria compartilhar o silêncio com alguém que não saberia o que dizer pra me confortar.
Aos poucos as sensações foram virando sentimento: eu não sentia que painho havia ido embora, eu não sentia que devia tê-lo abraçado mais, ter dito que o amava. Todos os dias eu esperava que isso viesse, mas não veio. O que veio foi o primeiro pensamento “meu pai morreu no hospital que eu nasci.” Uma grande ironia da vida, talvez? Só se for dessas que não fazem o menor sentido, nem nos ensinam nada. Deixei isso pra lá e de repente eu queria falar, falar montes de pensamentos que brotavam do nada, mas um dos pares de ouvidos que eu queria não estava por perto e o outro sempre desviava do assunto. Desisti. A tempestade foi passando. Já consigo escrever, apesar de mareada, nesse momento um abraço cairia bem do par de ouvidos que desvia do assunto.
O que fez a tempestade passar? Meu pai. Meus monólogos noturnos, longos, repetitivos e fatigantes tiveram uma resposta curta. Na madrugada do sábado ele foi respondido com uma invasão a um sonho tranqüilo e insignificante. Com grande susto me deparo com um pai sentado na minha cama. Ganhei um abraço e muitas, muitas perguntas.
Uma certeza meu pai me deu, ele pode me ouvir. O par de ouvidos que estava longe havia me avisado que alguém queria conversar comigo, mas não foi preciso intermediação. O que eu tinha pra ouvir, pude ouvir do meu próprio pai. O par de ouvidos de longe me tirou a preocupação que o ar confuso de painho me causou, já tem gente com ele.
Nunca senti vontade de chorar pelo meu pai, pois sempre soube que ele iria para um lugar bom. Estive preocupada com seus sentimentos e pensamentos, mas me assegurei de dizer tudo o que devia. Não quero mais nem menos do que isso, meu pai está comigo como sempre esteve. Não quero emitir um grito de dor para o mundo todo ouvir se não tenho essa dor. Não quero ser maior do que eu já sou, sendo do meu tamanho já posso ser vista pelas pessoas que importam, inclusive meu pai. E eu não quero falar como eu estou por que isso pode ser visto no meu rosto todos os dias. As pessoas só tiveram de se calar para que eu pudesse me ouvir e assim responder a todos com o silêncio das palavras escritas.